13/09/08 - 16:50

Muitos queriam estar no lugar dele. Já ele, por outro lado, adoraria não estar ali. Descobriu que o mundo lá fora não era tão grande assim, na verdade, era tão baixo quanto sempre foi sua vida toda, enquanto cresceu na Santana esquina com a Vicente da Fontoura. 

Desceu a Rue Cardinal, depois passou pela Nègre Joyeux, parou para tomar um café. O céu era sempre a mesma bosta. Uma coisa que seus conterrâneos sempre se esqueceram sobre o céu de Paris: era sempre a mesma bosta. Estava sempre ameaçando chover, e nunca chovia, era sempre apenas uma pequena chuviscada, com sereno à noite. Naquele dia, para variar, o céu estava com aquele nublado nojento de sempre. 

Terminou o café e levantou-se. Pagou a conta, deixou uma gorjeta e seguiu lentamente pela Joyeux. Não tinha pressa, nem esperanças. Não tinha pressa e muito menos esperanças. Pensou no que jantaria. A mesma porcaria européia de sempre. Agora ele entendia porque o exílio não era tratado com tanto louvor em livros e poemas. Se sentia um grande nacionalista, embora nunca fora um. Na verdade, sempre quis se mandar do seu país. Agora via o doloroso erro que havia cometido e queria voltar para casa. 

Chegou ao hotel, subiu para seu quarto. Passou pelas suas pinturas: ainda tinha um monte para terminar. Não se sentia motivado. Nada o motivaria, com aquele céu dos infernos. Deitou-se e apagou a luz. Ficou olhando fixamente para o teto, tentando dormir. Não tinha pressa, nem esperanças. 

Resolveu se levantar. Queria divertir-se um pouco. Chamou uma poule. Não ajudou muito, Pagou pelo serviço e voltou para o hotel. Ficou deitado. Sem esperanças... 

07/09/08 - 23:38

Não concordara com a tal passeata no começo, embora quisesse as mesmas coisas que os outros rapazes. No final das contas sua namorada o convenceu a ir naquele negócio, ela já convenceu ele tantas vezes antes que ele nem tentou resistir dessa vez. Pelo menos havia descoberto um grande segredo em relação às fêmeas: a força de convicção delas. 

Pegou um pé-de-cabra e umas bolinhas de gude, que colocou no bolso. Foi avisado de haveria resistência. O governo não estava de brincadeira. Achou que uma porrada na barriga para cada um seria o suficiente para conseguir ao menos sobreviver. 

Pegaram os cartazes e seguiram pela rua da praia, gritando seus hinos, entoando cantos que lembravam e enchiam seus corações de esperanças, algo que realmente os levava para frente, mesmo sabendo que levariam pontos, teriam membros quebrados, e, na pior das hipóteses, morreriam. A maioria deles iria morrer, na verdade, era o que estava escrito no livro do destino e aquilo não poderia ser mais mudado. A vida era uma merda naquela época, ainda é. 
Continuavam a entoar seus cantos. Olhou pela esquerda e viu as velhas fardas cor de vômito, que fediam a vômito e remetiam a vômito e vazio, nada mais. Pegou o pé-de-cabra, pronto para acertar aquelas almas assalariadas. O suor começou a escorrer-lhe pelo canto do rosto. Eles vinham alinhados, com seus cassetetes na mão. Preparou-se. Eles apressaram o passo, mas ele estava pronto. Acertou um.

Então todo mundo ouviu os gritos, que ecoavam por toda praça da alfândega. Todo aquele mar de gente agora se virava para a direita como uma enorme tsunami. Todos magros, mas com as cabeças bem alimentadas, egos alimentados com pensamentos libertinos, de esperança e coragem. Ele não pertencia muito bem àquilo ali, era mais calmo e tinha menos furor no sangue, mas olhou para o lado e viu aqueles pequenos cabelos loiros movimentando-se suavemente, enquanto as mãos brancas manejavam aquele pedaço de ferro contra cassetetes masculinos, movidos pelo salário e pão de necessidade. Foi tomado pelo espírito de liberdade de todos ali. Agora era um deles, podia sentir aquilo entrando-lhe pelo corpo. Manejou aquele pé-de-cabra como nunca. Tirou a consciência de vários, mas eram muitos. Seus longos cabelos crespos, em pé, na linha de frente de uma guerra já perdida.

A liberdade conduzindo a bandeira. A liberdade conduzindo o povo. Lembrou-se da pintura. A liberdade estava ali, ela podia senti-la. Aquilo era melhor do que qualquer noite de chapação que tivera. Qualquer cigarro de maconha que acendera. Sentia-se vivo e gostava daquilo. Levava golpes, nem os sentia. Estava com o nariz sangrando. Sentia o sangue caindo pelo seu nariz, latejante, provavelmente quebrado. Nem sentia. A liberdade havia lhe feito o curativo. Olhou para lado, e os cabelos loiros ainda moviam-se suavemente. As mãos agora exaustas não paravam. Puxou os cabelos e mergulhou naquele mar de gente. Precisavam descansar e sair daquele front de batalha. Os fardos de vômito continuavam lá na frente, lutando pela alimentação dos seus filhos. Estavam fazendo a força policial fazer jus ao seu salário.

Descansavam, mas quando viram, estavam de volta ao front de novo, estavam sendo derrotados. Sua camiseta roxa com laranja agora tingida de vermelho. Um vermelho tímido que tomava lugar aos poucos, em diversos lugares, como diferentes nódulos de um câncer. Lançou as bolinhas de gude. Todos o fizeram. Os fardas de vômito escorregavam. Matou três com o pé de cabra. Não estava sendo cruel. A liberdade tinha um preço. 

Deu um passo em falso e caiu, os cabelos loiros tentaram puxá-lo, mas estavam cansados. Não conseguiam puxá-lo. Os fardos de vômito o viram ali, deitado, cansado, suado e sangrado. Poderiam jurar que estava morto, não fosse os gritos que soltava. Estava em frenesi. Não habitava mais seu corpo, agora aquela dama de pele branca e seios de fora, com a bandeira nacional na mão habitava sua alma, assim como a de seus comparsas e dos cabelos loiros. Sorria enquanto os fardas de vômito acertavam sua barriga. Não podia sentir aqueles golpes, ele era feito de alma e não mais de carne e osso. Apenas sorria enquanto seu coração batia cada vez mais devagar e seu estômago era espancado. Apenas sorria quando seu coração havia definitivamente parado de bater. Não chore, cabelos loiros, não foste a culpada. Seu problema não foi acreditar no ideal que não vingaria, não houve problema algum. Apenas pagou o preço para ser lembrado como um cara legal, um bom cara, e para ter sua alma retirada daquele inferno, o mundo.